Herói
da conquista do heptacampeonato,
Neto desembarcou no Brasil com o mesmo sorriso que estampou no rosto logo após
marcar o gol decisivo contra a Espanha. Eleito o melhor jogador do torneio, o
fixo vive dias de redenção. Marcado por desperdiçar um pênalti na semifinal de
2004, também contra os espanhóis, ele diz que voltar ao país como protagonista do
título é a recompensa por não ter desistido.
Vede
a saga de um peregrino, na sua busca incessante pelo perdão. Um viajante
solitário, que vagou por entre as barreiras funestas que o tempo lhe impôs. Amaldiçoado
foi o teu nome. Viveu na contramão do destino, tal qual a folha seca rolando pelo
chão. Onde estará aquele afeto? O sorriso coletivo que te negaram? A caminhada
é percorrida por passos inseguros. O solo onde ele pisa é duro, assim como a sina
que carregou desde a tragédia acontecida. Um perverso golpe da fortuna.
Ficaste sozinho, naquele silêncio desesperado, sem que ninguém lhe desse uma
palavra de conforto. As luzes se apagaram, a torcida cessou o canto,
companheiros o maldiziam. Ouviste vozes que o culparam, tiveste visões que o perturbaram.
Foste julgado e sentenciado culpado pelo tribunal agudo do povaréu e da sua
própria consciência. Oito anos foi a tua pena. Onde acharás a redenção? Falemos
do pesar...
Mais
uma vez a natureza mostraria a sua face cruel perante um pobre paladino. O ano
era 2004. Ao término do desventurado instante, os braços não se abriram, os
aplausos não vieram... A alegria sucumbiu diante da decepção. A desonra era personificada,
e estava ali, resignado com a frustração. Ele não ouvia coisa alguma, somente o
eco dos seus pensamentos, que bradavam: desgraçado, miserável, desafortunado...
Todas essas alcunhas soavam bem aos seus ouvidos indecorosos. A noite escura não
encobriria a vergonha, nem a lembrança do infortúnio...
Maldita
marca do pênalti! Momento em que o poeta se sacrifica, no seu degredo da bola. Segundos
de medo e aflição; as pernas tremem, o coração bate acelerado. As gotas de suor
são gélidas, analogamente ao ar circunspecto que vem das arquibancadas. Três passos
para trás, mãos na cintura, as pupilas refletiam hesitação e o público que
cantava uma certeza. Avança, chuta... O gol seria uma constatação lógica e o
goleiro em nada significaria. Antes não tivesse batido. Maldita marca do pênalti!
Mas o que diríamos da alma de um virtuoso, se o propósito dela não fosse à redenção?
E ela viria...
O
mundo dá voltas, e a onda da vida o levaria à mesma praia, ou ao mesmo lugar. A
bendita quadra que o fizera derramar lágrimas de sangue, o mesmo adversário de
outrora... O destino mostrou-se generoso, o desfecho, no entanto, seria bem
diferente. O jogador em questão nunca foi um grande destaque, a sua engenhosidade
nunca encantou os olhos mais críticos e os aficionados jamais lhe dedicaram
honrarias. Sequer notaríamos a sua medíocre presença, a não ser pela nostalgia
de um problema. Os seus desígnios sempre foram à garra e a disposição. Contudo,
essa importante competição serviria para mudar conceitos e o seu patamar como
atleta. A simplicidade converteu-se em magnificência. O campeão agraciado pela
inexpressividade tornou-se a maior constelação de um céu estrelado; o melhor
entre os melhores, o mais rápido e voraz predador dentro de um universo antes
dominado por um Falcão.
POR: Otávio Camilo
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