quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A redenção de um injustiçado


             Herói da conquista do heptacampeonato, Neto desembarcou no Brasil com o mesmo sorriso que estampou no rosto logo após marcar o gol decisivo contra a Espanha. Eleito o melhor jogador do torneio, o fixo vive dias de redenção. Marcado por desperdiçar um pênalti na semifinal de 2004, também contra os espanhóis, ele diz que voltar ao país como protagonista do título é a recompensa por não ter desistido.
Vede a saga de um peregrino, na sua busca incessante pelo perdão. Um viajante solitário, que vagou por entre as barreiras funestas que o tempo lhe impôs. Amaldiçoado foi o teu nome. Viveu na contramão do destino, tal qual a folha seca rolando pelo chão. Onde estará aquele afeto? O sorriso coletivo que te negaram? A caminhada é percorrida por passos inseguros. O solo onde ele pisa é duro, assim como a sina que carregou desde a tragédia acontecida. Um perverso golpe da fortuna. Ficaste sozinho, naquele silêncio desesperado, sem que ninguém lhe desse uma palavra de conforto. As luzes se apagaram, a torcida cessou o canto, companheiros o maldiziam. Ouviste vozes que o culparam, tiveste visões que o perturbaram. Foste julgado e sentenciado culpado pelo tribunal agudo do povaréu e da sua própria consciência. Oito anos foi a tua pena. Onde acharás a redenção? Falemos do pesar...  
Mais uma vez a natureza mostraria a sua face cruel perante um pobre paladino. O ano era 2004. Ao término do desventurado instante, os braços não se abriram, os aplausos não vieram... A alegria sucumbiu diante da decepção. A desonra era personificada, e estava ali, resignado com a frustração. Ele não ouvia coisa alguma, somente o eco dos seus pensamentos, que bradavam: desgraçado, miserável, desafortunado... Todas essas alcunhas soavam bem aos seus ouvidos indecorosos. A noite escura não encobriria a vergonha, nem a lembrança do infortúnio...
Maldita marca do pênalti! Momento em que o poeta se sacrifica, no seu degredo da bola. Segundos de medo e aflição; as pernas tremem, o coração bate acelerado. As gotas de suor são gélidas, analogamente ao ar circunspecto que vem das arquibancadas. Três passos para trás, mãos na cintura, as pupilas refletiam hesitação e o público que cantava uma certeza. Avança, chuta... O gol seria uma constatação lógica e o goleiro em nada significaria. Antes não tivesse batido. Maldita marca do pênalti! Mas o que diríamos da alma de um virtuoso, se o propósito dela não fosse à redenção? E ela viria...
O mundo dá voltas, e a onda da vida o levaria à mesma praia, ou ao mesmo lugar. A bendita quadra que o fizera derramar lágrimas de sangue, o mesmo adversário de outrora... O destino mostrou-se generoso, o desfecho, no entanto, seria bem diferente. O jogador em questão nunca foi um grande destaque, a sua engenhosidade nunca encantou os olhos mais críticos e os aficionados jamais lhe dedicaram honrarias. Sequer notaríamos a sua medíocre presença, a não ser pela nostalgia de um problema. Os seus desígnios sempre foram à garra e a disposição. Contudo, essa importante competição serviria para mudar conceitos e o seu patamar como atleta. A simplicidade converteu-se em magnificência. O campeão agraciado pela inexpressividade tornou-se a maior constelação de um céu estrelado; o melhor entre os melhores, o mais rápido e voraz predador dentro de um universo antes dominado por um Falcão.   
          Não aviltemos os vitoriosos mediante a singeleza de um ato. Um erro pode ser fatal, no acerto, porém, alcançamos a glória. Belas jogadas, atuações decisivas e a bola de ouro foram os seus pedidos de desculpa. Neto possui a singular capacidade de sair do inferno e ir até o céu através da casualidade de um lance. Uma falha o fez vilão, um drible surpreendente e um gol salvador faltando 27 longos segundos o transformaram em herói. Detratado antes, exaltado agora. Fez-se o equilíbrio. Quanta emoção pode habitar dentro daquelas quatro linhas. Regozijo e desenganos, assim são os homens e os personagens esportivos; as águas que correm e os ventos que rugem não são outra coisa. Apenas mais um caso de redenção.

POR: Otávio Camilo

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