Parecerá um desígnio do acaso, mas dois homens
fitavam um farrapo de nuvem que se esbatia no horizonte longínquo. Suas plácidas
feições estavam tostadas pelos raios fulgurantes do sol, que lá no céu,
acompanhado das estrelas, dançava faceiro em seu baile imperial, e espalhava
sobre a terra que se ergue altaneira sob as dunas uma luz que era quase como
fogo. A beleza das praias e o límpido ar desse lugar serviriam de inspiração para
o gênio inventivo de dois irmãos.
Rompemos as barreiras funestas do espaço
e volvemos até o remoto ano de 1903, onde o sobranceiro manto azul refletia sua
luz nas frontes de dois indivíduos que desembarcaram da viagem pelo velho
mundo. Em suas bagagens trouxeram metas, esperanças e um objeto esférico, que
outrora brotaria do devaneio sublime de um certo inglês. A maior paixão de um
povo floresceu dos laços benévolos e visionários da fraternidade. Fabricio e
Fernando Pedroza, venturosos foram os seus propósitos. Que venham os valorosos
combatentes...
Três centros históricos, três
precursores da mais encantadora das nossas tradições; narrativas diferentes,
mas que são ligadas pelo heroísmo e por pensamentos de progresso. Tudo começou
na plena solidão de um vasto descampado. O chão não contemplava o verde; faltavam
traves, uniformes e regras. Naquele terreno sem cor habitava a perfeita
harmonia; inexistia o rancor e o preconceito. O solo rude e arenoso era palco
para todas as raças e credos; companheiros da mesma prática que engatinhava e
comensais das mesmas expectativas. Todavia, os terrenos desabitados já não seriam
suficientes para acomodar as aspirações daquelas pessoas. Outros rumos tomariam
os seus sonhos. Surge o Cavaleiro da Casa Real.
Já caía a viçosa alvorada
de junho, e lá estava ela, solitária, com uma formosa capitania crescendo ao
seu redor. Por entre as árvores ouvia-se a maviosa sinfonia dos pássaros e o
estridente sino da velha catedral. A brisa fagueira da manhã e os pitorescos bancos
espalhados ornavam a nova morada do desporto potiguar. Um lugar pacato, e de superfície
avermelhada pelo brilho portentoso do sol. Os sorrisos a realçavam, os seres
alados se faziam amigos e as pernas deixavam-se levar por si mesmas em seus
canteiros. Olhares estupefatos e o regozijo quase pueril daqueles desbravadores
preconizavam a graça que estabelecia a glória de um título. Nada mais lógico e
plebeu do que os ventos democráticos de uma antiga praça. A bola rolava prazenteira pelo chão da André de Albuquerque.
Os anseios mostravam-se maiores do que as localidades, e a necessidade
de se ter um lugar adequado para a atividade esportiva, não apenas o futebol,
se tornou algo indispensável. No início do século 20, foram fundados os
principais clubes de Natal, fato que auxiliaria os cartolas a pensarem na
possibilidade da criação de uma entidade capaz de associar essas equipes. Nasce
a Liga Norte Rio-Grandense. Dez anos foi o período que separou a instauração da
agremiação e a inauguração do primeiro espaço para fomentar o esporte local, o
estádio Juvenal Lamartine.
Heróis, abnegados, ambiciosos... História pautada por competitividade,
emoções e conquistas. André de Albuquerque, Juvenal Lamartine e Djalma Maranhão,
nomes de homens que morreram lutando pelos seus ideais, e que permanecerão dignificados
eternamente em praças que desenvolveram a magnificente arte concebida pelas graciosas
mãos humanas, o futebol. Os assentos agora estão vazios, os refletores
desligados e as doces recordações consumidas pela força arbitrária do tempo.
Fez-se o abandono. Por quê?
Otávio Camilo
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